Gravação da reunião do STF
Gisele Leite
Professora universitária há três décadas; Mestre em Direito; Mestre em Filosofia; Doutora em Direito; Pesquisadora – Chefe do Instituto Nacional de Pesquisas Jurídicas; Presidente da Seccional Rio de Janeiro, ABRADE – Associação Brasileira de Direito Educacional; Vinte e nove obras jurídicas publicadas; articulistas dos sites JURID, Lex Magister; Portal Investidura, Letras Jurídicas; Membro do ABDPC – Associação Brasileira do Direito Processual Civil; Pedagoga
O dramático cenário de desconfiança e desgaste no Supremo Tribunal Federal se agrava, doravante, ante a possibilidade de que o Ministro Toffoli tenha gravado clandestinamente a sessão reservada realizada no dia 12.2.2026 que resultou na saída da relatoria do processo referente ao Banco Master.
Com a divulgação da reunião secreta em reportagem do site Poder360 que reproduziu literalmente as falas dos Ministros. O Ministro Toffoli negou que tenha feito qualquer registro e, levando a hipótese de que algum funcionário da área de informática tenha realizada a referida gravação.
É uma situação inédita na Suprema Corte caracterizada por desconforto e perplexidade e, diante dos trechos divulgados que somente registraram passagens favoráveis ao Ministro Toffoli, sem atentar para profundidade do debate travado na referida sessão. O debate de notório tom político e que buscou a autopreservação de todos os ministros.
Em uma das falas se destacou a do Ministro Gilmar Mendes que in litteris declarou: “Eu acho que o que está por trás disso é que o ministro Toffoli tomou algumas decisões ao longo do seu tempo nesse caso Master aqui no STF que contrariaram a Polícia Federal. E a Polícia Federal quis revidar”.
Já a ministra Cármen Lúcia afirmou: “Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo. A população está contra o Supremo”. Ela acrescentou que, apesar de ter “confiança” em Toffoli, era necessário “pensar na institucionalidade”.
Oportunamente, o ministro Luiz Fux também saiu em defesa do colega: “O ministro Toffoli para mim tem fé pública. Meu voto é a favor dele. Acabou. Eu não sei o que vocês estão discutindo”. Nunes Marques declarou: “Para mim, isso é um nada jurídico”.
Em seguida, criticou a possibilidade de votação da suspeição: “Isso é um absurdo: o juiz lá da comarca do interior passará a ser comandado pelo delegado local se aceitarmos esse tipo de situação. Acabou o Poder Judiciário do Brasil. O sr. [Fachin] não pode colocar em votação a arguição. Minha sugestão é que o ministro relator do processo faça uma proposição dizendo que não é impedido nem suspeito e coloque os argumentos dele diante do que foi apresentado e a gente vota. E pelo que vi aqui, ele vai ter maioria. O ideal seria unanimidade, presidente. Mas estou falando mais sobre encaminhamento, pois do mérito eu não tenho dúvida”.
O Ministro André Mendonça atalhou: (…)”Está aqui claro que não existe: relação íntima em seis anos só com seis minutos de conversa? Como disse o ministro Fux, a palavra do ministro Toffoli tem fé pública. Então, isso está descartado”.
Já Cristiano Zanin declarou: “Sou há um ano e meio relator de um caso que envolve três ministros do STJ (Superior Tribunal de Justiça) e a Polícia Federal até hoje mandou para mim muito menos informação do que essas 200 páginas, com fotos de satélite, cruzamento de celulares? Isso aqui tudo é nulo”.
A seu turno, o ministro Flávio Dino criticou o relatório da Polícia Federal: “Essas 200 páginas [de relatório da PF] para mim são um lixo jurídico. Não adianta discutir esse lixo jurídico. A crise hoje é política, presidente [Fachin]. Em 2035, se Deus me der saúde, eu quero estar nesta cadeira. E, esta cadeira tem bônus e ônus. Eu acho que não adianta pensar nesta cadeira só nos bônus. Eu acho, sr. presidente, que o sr. deveria ter resolvido isso dentro da institucionalidade da presidência”.
Enfim, os ministros concluíram que o afastamento de Toffoli da relatoria seria a melhor solução para o tribunal. Nos bastidores, a suspeita de que ele teria gravado os colegas é vista como fator de potencial isolamento do magistrado na Corte, por representar uma quebra de confiança entre seus integrantes.
A versão de um acordo corporativista foi reforçada pelas declarações de Toffoli ao sair do tribunal, dizendo que foi “tudo unânime” e que o encontro teria transcorrido em clima “excelente”. Muitas reclamações de desconforto sobre a atuação da Polícia Federal teriam marcado as conversas.
O que estava em questão: um relatório de duzentas páginas feito pela PF (Polícia Federal). Esse material deveria servir para arguir a suspeição de Dias Toffoli como relator do caso do Banco Master, liquidado em novembro de 2025 e com um rombo na casa dos R$ 50 bilhões (cinquenta bilhões de reais) para o FGC (Fundo Garantidor de Créditos).
Teriam ficado a favor de Toffoli: Alexandre de Moraes, André Mendonça, Cristiano Zanin, Flávio Dino, Gilmar Mendes, Luiz Fux e Nunes Marques (além de Toffoli);
Contrários a Toffoli: Cármen Lúcia e Edson Fachin
Após o encontro, Toffoli deixou a relatoria do caso.
Ministro Gilmar Mendes:
O decano do STF, ministro Gilmar Mendes foi o primeiro a falar depois da exposição inicial de Toffoli, dizendo: “Eu acho que o que está por trás disso é que o ministro Toffoli tomou algumas decisões ao longo do seu tempo nesse caso Master aqui no STF que contrariaram a Polícia Federal. E a Polícia Federal quis revidar.”
Ministra Cármen Lúcia:
“Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo. A população está contra o Supremo”, segundo Cármen Lúcia.
E, ainda, complementou que tinha “confiança” em Toffoli, mas era necessário “pensar na institucionalidade”.
Citou ainda que não havia lido o material da PF, defendendo que fosse realizada nesta sexta-feira (13.2.2026) uma sessão extraordinária, para resolver o caso antes do Carnaval, “para isso não ficar sangrando, porque não é só você [Toffoli] que sangra, é a Corte inteira”.
Ministro Luiz Fux:
“O ministro Toffoli para mim tem fé pública. Meu voto é a favor dele. Acabou. Eu não sei o que vocês estão discutindo”, disse Luiz Fux, numa das intervenções mais rápidas da sessão reservada.
Ministro Alexandre de Moraes:
Moraes disse ser “amigo” de Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, mas que seu voto seria a favor de Toffoli.
O ministro falou em defesa da “institucionalidade”, que a PF fez um papel sujo e que, se houve uma investigação, era tudo nulo.
Ministro Nunes Marques:
“Isso é um absurdo: o juiz lá da comarca do interior passará a ser comandado pelo delegado local se aceitarmos esse tipo de situação. Acabou o Poder Judiciário do Brasil”, disse Nunes Marques, citando que não caberia suspeição na relatoria de Toffoli.
“O sr. [Fachin] não pode colocar em votação a arguição. Minha sugestão é que o ministro relator do processo faça uma proposição dizendo que não é impedido nem suspeito e coloque os argumentos dele diante do que foi apresentado e a gente vota. E pelo que vi aqui, ele vai ter maioria. O ideal seria unanimidade, presidente. Mas estou falando mais sobre encaminhamento, pois do mérito eu não tenho dúvida”, prosseguiu.
Ministro André Mendonça:
Por sua vez, Mendonça concordou com Cármen Lúcia a respeito de existir uma “crise de institucionalidade” na Corte.
Ainda segundo o novo relator do caso, ele listou o que leu do relatório da PF. “Tem uma questão sobre o que é descrito como relação íntima do ministro Toffoli e Vorcaro”, ponderou.
“Isso não existe. Está aqui claro que não existe: relação íntima em seis anos só com seis minutos de conversa? Como disse o ministro Fux, a palavra do ministro Toffoli tem fé pública. Então, isso está descartado”, seguiu.
E, finalizou dizendo: “Pode acontecer com qualquer um de nós [investida da Polícia Federal]. Quero saber se vão dar esse tratamento para mim.”
Ministro Cristiano Zanin:
Na abertura de sua fala, Zanin disse que pretendia votar a favor da permanência de Toffoli como relator.
“Sou há um ano e meio relator de um caso que envolve três ministros do STJ (Superior Tribunal de Justiça) e a Polícia Federal até hoje mandou para mim muito menos informação do que essas 200 páginas, com fotos de satélite, cruzamento de celulares…? Isso aqui tudo é nulo.”
Ministro Flávio Dino:
O ministro Flávio Dino começou dizendo que concordava “com tudo o que foi dito”.
Mas foi logo afirmando: “Essas 200 páginas para mim são um lixo jurídico. Não adianta discutir esse lixo jurídico. A crise hoje é política, presidente [Fachin]. Em 2035, se Deus me der saúde, eu quero estar nesta cadeira. E esta cadeira tem bônus e ônus. Eu acho que não adianta pensar nesta cadeira só nos bônus. Eu acho, sr. presidente, que o sr. deveria ter resolvido isso dentro da institucionalidade da presidência”.
O clima dentro do Supremo Tribunal Federal (STF) com a saída de Dias Toffoli da relatoria do caso Master piorou em vez de melhorar. O motivo é que ministros do tribunal suspeitam que as reuniões privativas foram gravadas e parte do conteúdo foi repassado.
Três reuniões foram realizadas nesta quinta-feira. Uma, reservada, com apenas cinco ministros, antes da sessão plenária. Depois, duas após a sessão. Uma de duas e vinte minutos e outro de cerca de 30 minutos. Nestas reuniões, nenhum assessor esteve presente fisicamente, apenas os magistrados.
De acordo com a reportagem do Poder360, na reunião reservada, oito dos dez ministros da Corte, inclusive Toffoli, teriam se posicionado pela permanência do ministro na relatoria do inquérito sobre as fraudes financeiras do banco de Daniel Vorcaro.
Somente o presidente da Corte, Luiz Edson Fachin, e a ministra Cármen Lúcia teriam se manifestado pela saída de Toffoli da relatoria.
Além do próprio Toffoli, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Nunes Marques, André Mendonça, Luiz Fux, Flávio Dino e Cristiano Zanin defenderam a manutenção do relator.
“Minha sugestão é que o ministro relator do processo faça uma proposição dizendo que não é impedido nem suspeito e coloque os argumentos dele diante do que foi apresentado e a gente vota. E pelo que vi aqui, ele vai ter maioria. O ideal seria unanimidade, presidente [Fachin]”, declarou Nunes Marques no encontro, conforme o Poder360.
No entanto, após uma manifestação de Dino sobre o contexto político do caso Master, Toffoli teria se convencido de que o melhor movimento era o seu afastamento da relatoria, o que foi anunciado na noite desta quinta.
Com a saída de Toffoli, André Mendonça foi sorteado como novo relator do caso Master. A substituição evitou uma decretação de suspeição de Dias Toffoli e, consequentemente, preservou todos os atos já praticados pelo magistrado no inquérito.
Infelizmente, a saída da relatoria do Ministro Toffoli não reduziu o tenso clima de crise e desgaste na Suprema Corte brasileira.
Até o momento, não há confirmação oficial de que a reunião tenha sido gravada.